Orientação familiar e pedagógica

agosto 01, 2016

“Atenção, pais, dá para remar contra a maré.”
Rosely Sayão

Que a infância tem sido, de vários modos, roubada de nossas crianças, dá para perceber. Basta dar uma olhada um pouco mais cuidadosa no modo de viver delas que logo identificamos o estilo adulto: compromissos fixos semanais, além da escola, agenda a cumprir, horário apertado, falta de tempo para brincar e para não fazer nada, anseios e pressões da vida social, e isso só para citar alguns exemplos. Mas, de alguns detalhes dessa história, só mesmo pais e mães com filhos pequenos conseguem ter a exata dimensão. Recebi uma correspondência muito interessante de uma leitora que é mãe de uma menina de 5 anos. Ela conta que saiu com o marido para uma compra aparentemente simples: uma sandália para a filha usar no verão. O que parecia fácil tornou-se motivo de receio, indignação e reflexão. Não é que todas as sandálias encontradas no  amanho usado pela garota têm salto? Existem sandálias com salto plataforma, com salto anabela, com saltinho e com saltão. Mas sandália para a menina correr, pular, virar cambalhota,  altar, nada! Ou seja, é difícil encontrar sandália para criança porque agora menina tem de se vestir como mulher. Depois de ler essa correspondência, conversei com outras mães de meninas, e elas confirmaram a mesma dificuldade. Para resolver a situação, a saída encontrada por algumas delas foi comprar um tipo de sandália chamada papete, muito confortável, mas originalmente feita para os meninos. Então, quer dizer que menino tem o direito de ser moleque, correr e saltar, mas menina não? Menina tem de aprender a se vestir  como mulher desde cedo?

Claro que as meninas simplesmente adoram brincar de se vestir de mamãe, de colocar sapato de salto, de passar esmalte e batom. Meninos também, é bom saber. Mas o que deveria ser uma simples e gostosa brincadeira de faz de conta de ser gente grande, virou obrigação. O que deveria ser exceção tornou-se regra. Será que os fabricantes responderam a uma demanda do mercado provocada, sabe-se lá por quais motivos, ou será que as mães foram obrigadas a aceitar essa moda para suas filhas? O que veio primeiro não importa tanto, mas o fato é que hoje a mãe que quer uma filha vestida como criança tem dificuldade para se virar, e não apenas no que diz respeito aos calçados. As sandálias de salto alto para meninas de 5 anos são apenas um sinal de que a infância está sendo assaltada pelo mundo adulto por todos os lados. Uma criança de 9 ou 10 anos, por exemplo, se gosta de  rincar de boneca—o que era muito comum há um tempo—, hoje vai ter dificuldade. Em primeiro lugar, como contou nossa leitora e pude comprovar, a maioria das roupas para garotas dessa idade não facilita em nada que ela se sente no chão, se esparrame, fique à vontade. Afinal, calça jeans justa e de cintura baixa, top, minissaia ou vestido decotado são  roupas que exigem cuidados especiais na postura. Em segundo lugar, a garota dessa idade vai se sentir constrangida, pois nem é mais considerada criança, e sim pré-adolescente. Brincar de boneca, então, passa a ser coisa para ser feita às escondidas. Nossa leitora, e muitas outras mães, não são saudosistas: não querem para as filhas a mesma infância que tiveram. Elas sabem que o mundo mudou. Mas será que não é possível hoje que as crianças possam ser crianças? É possível, sim, e o papel dos pais, para tanto, é fundamental. A exemplo dessa mãe que nos escreveu, muitas outras lutam para preservar a infância dos filhos, seja no modo de se vestir, seja no modo de viver. A coisa mais importante na vida da
criança continua sendo a brincadeira. E, para isso, ela precisa estar à vontade e ter tempo. Não é pequeno o número de pais que oferecem essas condições aos filhos. Para que eles
continuem a árdua empreitada, é bom saber que não são minoria, que não estão sozinhos. Para os que já desistiram, é bom saber que, apesar do trabalho exigido, dá para remar contra a maré.

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